Por que falar de casos reais?
Em um ambiente empresarial cada vez mais competitivo e regulado, a governança corporativa deixou de ser uma exigência de mercado para tornar-se um instrumento estratégico de gestão e sustentabilidade. Empresas que estruturam seus conselhos, aprimoram controles internos e ampliam a transparência conseguem reduzir riscos, fortalecer a reputação e garantir perenidade.
O livro Estudos de Caso de Boa Governança Corporativa, publicado pela International Finance Corporation (IFC) e pela OCDE, demonstra que a governança é capaz de transformar realidades corporativas em diferentes segmentos e tamanhos empresariais.
A seguir, alguns exemplos inspiradores de companhias latino-americanas — incluindo brasileiras — que elevaram seu desempenho ao adotar boas práticas de governança.
CCR: da credibilidade à liderança nacional
Criada em 1998, a Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR) enfrentou o desafio de conquistar confiança do mercado, já que seus controladores também atuavam na construção civil — um potencial conflito de interesses.
Com apoio da consultoria McKinsey, a CCR redesenhou sua estrutura de governança, implantando conselho com membros independentes, comitês de auditoria, estratégia e governança, e políticas rigorosas para contratos com partes relacionadas
Ao ingressar no Novo Mercado da B3, a CCR adotou o princípio de “uma ação, um voto”, assegurando direitos iguais a todos os acionistas. O resultado foi expressivo: entre 2002 e 2005, suas ações se valorizaram mais de 350%, superando o próprio índice Ibovespa. Hoje, a CCR é referência em transparência e profissionalização, operando mais de 1.400 km de rodovias.
Cementos Argos: a cultura da transparência como ativo
A colombiana Cementos Argos, quinta maior produtora de cimento da América Latina, iniciou sua transformação em governança quando percebeu que precisava comunicar ao mercado o valor da transparência. Implantou um Código de Boa Governança alinhado às diretrizes da OCDE, IFC, IBGC e NYSE, e submeteu suas práticas à verificação por auditores independentes.
Com isso, atraiu novos investidores, quadruplicou o número de acionistas e obteve crescimento de 420% na capitalização de mercado em um único ano, provando que a governança pode ser um ativo financeiro tangível.
Atlas Eléctrica: controles internos e ética como base de confiança
Na Costa Rica, a Atlas Eléctrica foi pioneira na emissão de ações em bolsa e percebeu cedo que transparência seria essencial para sustentar seu crescimento. Criou comitês de auditoria e remuneração, exigiu declarações anuais de adesão ao código de ética e contratou a Deloitte para implementar um programa de controles internos baseado no modelo COSO
Essa estrutura assegurou a conformidade com as normas internacionais e reforçou a confiança de investidores e órgãos reguladores, o que resultou em lucros crescentes e reconhecimento no mercado centro-americano.
Buenaventura: governança como passaporte para Wall Street
A mineradora peruana Buenaventura enfrentou forte endividamento nos anos 1980 e viu na governança uma oportunidade de reerguimento. Antes de abrir capital na Bolsa de Nova York (NYSE), em 1996, reformou seu Conselho, instituiu comitês independentes, criou um código de ética e eliminou classes distintas de ações, garantindo direitos iguais de voto.
Com essas medidas, captou US$ 150 milhões em sua oferta inicial e multiplicou por nove sua capitalização de mercado em dez anos — prova concreta de que governança sólida abre portas para capital global e gera valor sustentável
Embraer e Suzano: exemplos brasileiros de maturidade institucional
A Embraer consolidou um modelo de governança de padrão internacional, com conselheiros independentes, comitês temáticos (ESG, Auditoria e Estratégia) e comunicação transparente com investidores. A governança foi determinante para sua resiliência em momentos de crise e para sua reputação global de excelência.
A Suzano, por sua vez, atingiu o nível mais alto de governança ao ingressar no Novo Mercado da B3 após sua fusão com a Fibria. A empresa assegurou direitos iguais entre acionistas e maioria independente no conselho, reforçando sua credibilidade perante o mercado internacional e ampliando o acesso a capital sustentável.
Lições e boas práticas extraídas dos casos
- Liderança comprometida: a adesão da alta administração e dos controladores é condição essencial para o sucesso de qualquer programa de governança.
- Conselho ativo e independente: diversidade de visões e decisões colegiadas fortalecem o controle e a estratégia.
- Transparência e prestação de contas: relatórios consistentes e comunicação clara constroem reputação e reduzem riscos.
- Códigos de ética e controles internos: sustentam a integridade organizacional e previnem litígios e fraudes.
- Responsabilidade social e sustentabilidade: empresas com governança sólida tendem a investir mais em projetos ambientais e sociais, reforçando o valor de longo prazo.
- Governança como jornada contínua: como demonstram os estudos do IFC, a boa governança não tem ponto final — ela se renova conforme o negócio evolui
Conclusão
Os casos de CCR, Cementos Argos, Atlas Eléctrica, Buenaventura, Embraer e Suzano mostram que a governança corporativa não é um modismo jurídico, mas um sistema de gestão orientado à perenidade e geração de valor.
Empresas que se comprometem com governança constroem credibilidade, acessam capital com menor custo e tornam-se mais competitivas. Como bem sintetiza o estudo da IFC e da OCDE, a boa governança “é uma jornada, não um destino” — e cada empresa precisa encontrar o caminho que melhor se ajusta à sua realidade e propósito.
